03/10/2020

Está concluída mais uma intervenção no âmbito do programa municipal Porto Amigo. A casa reabilitada em Ramalde recebeu a visita da Câmara do Porto e dos parceiros envolvidos no projeto, que apesar da pandemia está a ter um ano recorde.


O branco das paredes resplandece, o painel fotovoltaico no telhado cintila ao sol, e o próprio Manuel Alves tem um brilho renovado no rosto. Inquilino, em Ramalde, de uma casa que, até há bem pouco tempo, denunciava a passagem dos anos e cujo estado de degradação avançava a olhos vistos, viu a sua habitação ser totalmente reabilitada, numa intervenção possibilitada pelo programa Porto Amigo, dinamizado pela Câmara em parceria com a Fundação Manuel António da Mota, o GAS Porto (Grupo de Ação Social do Porto) e, a partir de 2017, a associação Just a Change.


A habitação foi visitada nesta sexta-feira pelos parceiros do projeto, um momento ao qual o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, fez questão de não faltar. "Um bem-haja a todos os que colaboraram", agradeceu Alcina Neto, a irmã de Manuel Alves, acrescentando: "Vejo o meu irmão com outra alegria, com outro humor. Sentia-o triste pela situação em que vivia. Eu, infelizmente, não tinha possibilidades para o apoiar mais do que tenho apoiado, de maneira que este projeto foi bastante importante para ele. Foi um mini-Euromilhões que saiu ao meu irmão".




O Programa Porto Amigo tem vindo a viabilizar, no concelho do Porto, a realização de obras de reconstrução, reabilitação, decoração e melhoria dos níveis de mobilidade e de salubridade em casas de pessoas que se encontrem em situação de comprovada carência económica. Reabilitam-se imóveis e dignificam-se vidas, com o aumento do bem-estar emocional, físico e socioeconómico dos beneficiários. Desde 2009 já foram recuperadas 35 habitações.


A intervenção na casa habitada por Manuel Alves foi "das maiores obras" empreendidas pela Just a Change desde que se associou ao Porto Amigo. O custo final da obra ficou perto dos 22 mil euros, reflexo da extensão dos trabalhos que foram necessários: "A casa estava muito degradada. O telhado tinha muitas infiltrações, ainda por cima era um telhado em amianto, que é cancerígeno e é obrigatório remover sempre que se faz uma intervenção. A casa de banho tinha muitos problemas, a cozinha não tinha grande exaustão. As janelas e portas eram muito antigas. Foi uma obra de cima a baixo", descreveu o diretor de operações da Just a Change, Simão Oom.


A pandemia representou um desafio adicional, porque implicou uma redução dos turnos dos voluntários na obra. "Começámos com uma estrutura de 100 voluntários e um mestre-de-obras, num modelo rotativo, mas depois passámos de cinco pessoas aqui na obra para uma só, que era o técnico. Acabámos por demorar aqui mais dois meses do que o estimado", admitiu Simão Oom, ressalvando porém que o "sentimento de missão cumprida" compensa as dificuldades: "A casa está bem, não chove, está feita com qualidade. O senhor Manuel vai passar aqui melhores invernos e melhores verões. Isto é um ponto de partida para uma nova vida. Este senhor estava muito isolado, saía pouco, falava pouco. Agora já o vemos mais aberto, mais feliz, mais sorridente".


"Há capacidade para realizar mais intervenções"


Descrevendo o Porto Amigo como um programa "muito virtuoso", o vereador da Habitação e Coesão Social, Fernando Paulo, notou que a visita hoje realizada procurou mostrar que "apesar da pandemia, não esquecemos as pessoas e continuamos a trabalhar para melhorar a sua condição de vida".


"Temos vindo a trabalhar com as juntas de freguesia e com os nossos parceiros sociais, e o apelo que faço é que nos sinalizem. Há capacidade para realizar mais intervenções como esta. Ainda temos muitas situações na cidade que merecem apoio. O nosso apelo é que se dirijam à Câmara do Porto, porque temos uma resposta para as pessoas que vivem em condições de insalubridade e necessitam de melhorar a sua condição de vida", reiterou o vereador da Habitação e Coesão Social.


"Esta é a primeira casa em que recorremos às energias renováveis, uma vez que ficou dotada de um painel fotovoltaico, o que mostra a preocupação da Câmara do Porto do ponto de vista social, mas também do ponto de vista ambiental", assinalou Fernando Paulo, reconhecendo que o retorno do programa é "extremamente positivo". "De facto as pessoas sentem-se muito felizes, não só com o resultado, mas também com o processo, que decorre sempre com uma grande proximidade em relação aos inquilinos. Há sempre um acompanhamento das equipas de voluntários, e com isto também consciencializamos os jovens para os valores da ética, da solidariedade, da compreensão e entreajuda", sublinhou.


Parceira da Câmara do Porto neste programa desde 2008, a Fundação Manuel António da Mota (FMAM) conseguiu este ano o melhor registo de reabilitação de habitações, pese embora as circunstâncias marcadas pela pandemia. "Dada a situação de crise epidémica que estamos a viver, por contraste, acabou por ser o nosso melhor ano desde o início desta parceria, em que reabilitamos, ou estão em vias de reabilitação até ao final do ano, sete casas. Que é um recorde, desde o início do programa", frisou o presidente da comissão executiva da FMAM, Rui Pedroto.


"Esperemos que, com o atenuar desta situação provocada pela Covid-19, possamos retomar o formato normal do programa, que passa pela mobilização de jovens estudantes universitários que dão algum do seu tempo para vir fazer solidariedade e ajudar pessoas que estão em situação de carência habitacional a terem uma habitação condigna", disse Rui Pedroto, expressando a vontade "inequívoca" de continuar a investir no crescimento do projeto.


"Temos tido uma relação exemplar com todos os parceiros, a começar pela Câmara do Porto, Just a Change e GAS Porto. Não tenho qualquer dúvida que esta parceria irá continuar por muitos e bons anos, até que os problemas habitacionais no Porto, na pequena contribuição que podemos dar, possam estar resolvidos. E certamente esse cenário ainda estará muito distante", reconheceu o presidente da comissão executiva da FMAM.


Pelo facto de a habitação se tratar de um "direito constitucionalmente consagrado", Rui Pedroto valorizou o programa Porto Amigo como um "esforço da sociedade civil organizada, a mobilizar-se para resolver problemas sociais, não esperando que seja apenas o Estado, a administração central e as autarquias, a fazê-lo. É muito importante que haja aqui um esforço conjunto, entre o Estado e a sociedade civil, para ajudar a mitigar problemas sociais do país, que se vão perpetuando ao longo do tempo", concluiu.

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